Conto de Bakeneko

Conto de Bakeneko

Agora que conhecemos as regras e os poderes que regem a lenda do Bakeneko, o Grimório Esquecido vai, portanto, lhes contar uma história. Especificamente, um conto que poderia ter sido sussurrado nas vielas escuras da antiga Edo, sobre um homem chamado Kenji e um gato chamado Tama.

A Crueldade de um Homem

Kenji era um ronin, um samurai sem mestre, e, consequentemente, o peso do fracasso o tornava um homem amargo. Ainda assim, sua única companhia em sua cabana miserável era Tama, um pequeno gato preto de olhos verdes e uma cauda extraordinariamente longa e elegante, que se movia como a pincelada de um calígrafo.

Então, numa noite fria de quinta-feira, após perder suas últimas moedas no jogo e afogar a raiva em saquê barato, Kenji voltou para casa. A frustração, sem dúvida, o corroía. Foi nesse momento que, ao ver Tama se espreguiçando tranquilamente, uma fúria cega tomou conta dele. Num ato de crueldade que ele mesmo mal compreendeu, culpou o animal por sua má sorte. Infelizmente, o som que se seguiu – um miado agudo de dor – ecoou na noite. Tama, com a pata traseira quebrada, arrastou-se para fora e desapareceu na escuridão.

O ronin Kenji em sua cabana, antes do ato de crueldade que deu início ao conto de Bakeneko.

O Silêncio e a Sombra

As semanas que se seguiram foram, de fato, de um silêncio opressor. Kenji, embora nunca admitisse, era assombrado pela culpa. Sua sorte não melhorou; pelo contrário, parecia que uma sombra de infortúnio o seguia.

Foi então que ele começou a notar sua vizinha, uma senhora idosa e reclusa chamada Chiyo. Antes quieta, ela começou a lhe trazer presentes. Eram sempre peixes, frescos e de boa qualidade, que um ronin falido como ele não poderia comprar.

“Para aplacar sua fome, nobre samurai”, dizia ela, com um sorriso que não alcançava seus olhos. Olhos que, Kenji notou com um arrepio, pareciam mais brilhantes, mais verdes, enfim, mais felinos. E por vezes, quando ela se afastava, ele tinha a estranha impressão de ver o balançar de algo longo e escuro sob seu quimono.

A Revelação na Parede de Papel

O medo começou a se instalar. Certa noite, Kenji não conseguiu dormir. A lua cheia projetava sombras nítidas através das paredes de papel de sua casa. Ele olhou para a parede que dividia sua cabana da de Chiyo e gelou.

A silhueta projetada não era a de uma velhinha curvada. Era a de um gato. Um gato enorme, que se erguia sobre duas patas, esticando-se preguiçosamente. E sua cauda… era longa, e parecia se dividir em duas na ponta.

Tomado por um pavor que não sentia desde o campo de batalha, Kenji pegou sua katana e foi até a porta da vizinha. Ele a encontrou na varanda, penteando seus cabelos brancos sob o luar.

“Chiyo-san?”, ele chamou, a voz trêmula.

A velha virou-se lentamente. Seu sorriso era largo e predatório. “Você demorou a perceber, Kenji-san”, disse ela, mas a voz não era de uma idosa. Era um ronronar baixo e gutural. “Ou talvez devesse me chamar pelo meu nome antigo. Tama.”

A Vingança Silenciosa

O corpo de Kenji paralisou. Ele entendeu tudo. Onde estava a verdadeira Chiyo?

“Ela era… saborosa”, o Bakeneko ronronou, deliciando-se com o horror no rosto de Kenji. “Mas não se preocupe. Não vim para matá-lo. Isso seria rápido demais.”

A criatura se levantou, agora movendo-se com uma graça fluida e antinatural.

“Minha vingança é vê-lo todos os dias. É saber que você vive ao lado da criatura que criou com sua própria crueldade. É vê-lo comer o peixe que trago, sabendo que poderia ser você no prato. Você não pode fugir, Kenji. Quem acreditaria em você? Você é meu. Para sempre.”

E assim, Kenji, o ronin, encontrou seu fim. Não na ponta de uma espada, mas em uma prisão de medo. Ele foi forçado a viver seus dias como vizinho de seu próprio pesadelo, um fantasma em sua própria vida, assombrado pelo olhar verde e penetrante do gato que ele um dia ousou machucar. Porque, a vingança, afinal, é um prato que se serve frio. E, às vezes, com cheiro de peixe.

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